terça-feira, 28 de abril de 2009

sobre algo que.

guarde segredo que te quero e conte só os seus pra mim. faça de mim o seu brinquedo; você é meu enredo, vem pra cá.
te quero, te espero. não vai passar.
você pensa em mim, eu penso em você - eu tento dormir, você tenta esquecer. longe do seu ninho, meu andar caminho, deixo onde passo os meus pés no chão. sou mais um na multidão.
o mar de sol no leito do lar que nem um rio pode apagar, o amor é fogo e ferve queimando. estou ferido agora e sigo te amando; você pode acreditar. a mesma carta, o mesmo verbo. em sonho só viver pra ti. quem tem a chave do mistério não teme tanto o medo de amar.
me cego, te enxergo. não vai passar.
o amor não tarda, está.
te quero, te espero. não vai passar.
você pensa em mim, eu penso em você - eu tento dormir, você tenta esquecer. longe do seu ninho, meu andar caminho, deixo o óbvio faço os meus pés no chão...
sou mais um na multidão.

domingo, 5 de abril de 2009

Epifanias sobre o fim de um verão triste.

Verão, meu bem. O verão acabou. Finalmente chegaram as águas de março e só agora consigo alcançar a calma que preciso ter para escrever sobre ti; tudo entra agora em um estranho ritmo, quase-ritual, de início de outono e as ruas estão sempre mais vazias. A velha preguiça ao me levantar da cama pela manhã voltou, já posso usar minhas roupas habituais, as crianças que brincam em frente a minha casa estão um pouco mais silenciosas, meus banhos de final de tarde estão novamente funcionando como tranqüilizantes, meu café volta sem culpa a me fazer companhia durante todos os intervalos de cinco minutos que tenho durante todo o dia e até o canto dos pássaros é diferente. Em meio à todo alívio que sinto com o fim do verão, desponta dentro de mim uma pontinha de culpa por desejar tanto que cheguem logo os outonos com seus abrils e maios – ironicamente, meu amor, a primeira vez em que pude tocar teu rosto foi em uma tarde quente de um lindo verão.
Muitas luas já passaram por cima da primeira vez em que te vi. Todas as outras estações do ano já se repetiram e se repetiram também muitas outras que não existem no calendário. Atravessei agostos cortantes e julhos inteiros de saudade, admirei primaveras solitárias e vi chegar novamente os tristes verões que tanto me doem.
Aos finais de semana, meu querido, geralmente acordo sozinha. Ninguém em casa e a brisa leve que entra pelas frestas da porta diretamente da rua são uma marca intransferível do outono. O ventinho frio me toca os pés, o café feito bem antes de que eu acordasse espera pela minha caneca; imediatamente após a minha primeira – e mais gostosa – refeição, me recolho para um livro. Prefiro assim, com o silêncio dos móveis que não têm mais com quem conversar. Já tentei dar um jeito no meu quarto, mas sabes bem que não nasci pra isso – preciso me distrair, sento à janela, observo o jardim, tento assistir um filme qualquer. God knows como odeio a televisão! Música, talvez.
Acontece que, meu bem, por mais que eu me movimente por aqui, teus traços estão impregnados em todas as paredes que posso ver. Loucura ver tua imagem em todos os cantos deste lugar quando tudo o que existe ao meu redor é uma espantosa solidão. Tuas mãos, meu amor, tuas mãos e tudo o que elas seguraram, inclusive eu. Meus cabelos, meu travesseiro, minhas roupas e minhas próprias mãos também. Eu não fui abençoada com o dom das palavras, e muito menos sei desenhar, mas nenhuma outra pessoa no mundo além de mim sabe da vontade – e necessidade – que tenho de descrever e reproduzir tuas mãos em alguma folha branca de papel. O papel aceita qualquer coisa, jamais me recriminaria por errar teus traços ou distorcer tua ortografia. Uma outra forma de liberdade.

segunda-feira, 23 de março de 2009

...

tire o seu sorriso do caminho
que eu quero passar com a minha dor...
hoje pra você eu sou espinho
e espinho não machuca a flor
eu so errei quando juntei minh'alma a sua,
o sol não pode viver perto da lua.
tire o seu sorriso do caminho
que eu quero passar com a minha dor.
hoje pra você eu sou espinho
e espinho não machuca a flor
eu so errei quando juntei minh'alma a sua,
o sol não pode viver perto da lua...

é no espelho que eu vejo a minha mágoa,
a minha dor e os meus olhos rasos d'agua
eu na sua vida já fui uma flor
hoje sou espinho em seu amor,
eu so errei quando juntei minh'alma a sua
o sol não pode viver perto da lua...

tire o seu sorriso do caminho
que eu quero passar com a minha dor
que eu quero passar com a minha dor...

(nelson cavaquinho)

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Demorei muito tempo p'ra reparar em como o azul do céu de uma tarde calma combina com o amarelo recém-pintado das paredes do meu quintal. Hoje o fim de dia está tão bonito que é um crime você não estar aqui para ver comigo, meu amor. Um crime.

terça-feira, 30 de setembro de 2008

réquiem ao ir-remediável.

Para alguém que muito amou.

Por onde andará o doce?
Em meio a estas curvas tão fechadas que levam o amor à concretização da obra é muito fácil se perder. Deve andar vagando por aí. Ou então foi de encontro ao ponto que corrompeu tantas almas neste mundo, por trás dessa visão comum a uns poucos, que se reconhece apenas depois de ter carregado peso nos ombros o suficiente para entender o quanto doem, que cria esta estranha intimidade entre estranhos. Tenho certeza que está muito, muito além das palavras. Uma doença criada por décadas e décadas; não é mais espantoso que alguns pobres corações tenham nascido com a missão de tomar conta do mundo. Tendo sentido o doce uma única vez, é impossível deixar de procurá-lo, eu sei. O elo de transição que separa a loucura da arte foi sumindo aos poucos, não foram só os cegos que deixaram de ver.
Talvez agora já tenha conhecido o paraíso, o fogo que saia das tuas mãos - assim como o que sai do estômago dos dragões -, há muito já se apagou. Como já dissera uma vez Otto Lara Resende: "não se trata de literatura, mas de bruxaria".

E eu? Bom, eu continuarei buscando o doce por aí.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Anotações sobre uma pequena epifania.

“Eu disse: a lua está tão bonita que me dói por dentro. Ele não entendeu.”
Doeu. Virei para o lado, como num surto muito repentino de pensamento, um flash, passou rápido, ou devagar, não saberia precisar. Fechei os olhos e vi, dançando bem alí, na minha frente, infinitas cores. Bonitas, talvez, não sei. Fui remetida à um ritual. Pressionei as pálpebras, ficaram mais fortes, mais vivas. Corriam, de um lado para o outro, se exibindo aos meus olhos fechados; admirei o encanto daqueles sinaizinhos por alguns segundos que, depois, me pareceram ter sido horas. Desejei ardentemente que não desaparecessem. Abri os olhos, algumas ainda restavam, embora fossem se escondendo rápido, como se fugissem da luz que de repente rasgou o cenário negro daquela dança estranha, de cores. Pareciam astros, imaginei um céu e fechei de novo os olhos, tentando retomar aquilo que, para mim – no momento, pelo menos -, era quase mágico, mas todas elas haviam sumido. Meus pequenos astros se assustaram com a luz, pensei, e me pareceu cruel visto dessa forma; abri os olhos novamente, eles se foram. Enxerguei a parede, os azulejos muito limpos, a cozinha sempre branca. Empurrei o corpo um pouco p’ra baixo na cadeira, me movimentei para as lados ajeitando confortavelmente a coluna no encosto almofadado, concentrei minha mente no livro e voltei a ler.

“É tudo tão bonito que me dói e me pesa. Fico pensando que nunca mais vai se repetir, é só uma vez, a única, e vai me magoar sempre. Não sei, não quero pensar.”
Meus olhos, não sei se contra minha vontade ou não, saltaram para fora daquelas palavras tão vivas, olhei para frente e vi um relógio. Não, não era um relógio, era só uma parte dele. O miolo, eu diria, só a pequena maquininha com algumas engrenagens minúsculas e dois ponteiros, não haviam números, nada, era apenas uma parte de relógio, assim, nu. São essas bondades penosas que me doem, eu refleti, quase como uma conclusão, uma descoberta, uma solução. E era tudo tão simples a minha volta que, por um instante, uma fração de segundo, eu achei que não poderia suportar. Como suportar essa simplicidade tão bonita e tão frágil de tudo que me cerca e me completa assim, simplesmente? Uma ternura estranha, grande, gorda, pesada, pareceu ter caído sobre mim, da mesma forma como havia acontecido outras inúmeras vezes, e eu não sabia da onde vinha; não vinha de lugar nenhum. As palavras, eu disse baixinho como um sopro, as palavras estão vivas, e me assustei; as palavras estão vivas, prossegui, as palavras estão vivas e me corroem por dentro. Não era só alí, naquela cozinha branca e limpa, com aquele cheiro de fim de tarde cinzenta, naquela solidão de casa grande, mas em todos os lugares. Um monstrinho interior que estava cansado, que avançava em cima de cada pedaço de sentimento que me chegasse perto. Quantas pessoas não fizeram disso um motivo para se perder, quase gritei, esperando uma resposta, fosse do livro, da parede, das cores, das palavras, de mim mesma. Uma piedade desumana brotou sem porquê. O relógio estava alí, parado, bem na minha frente, indefeso. Imaginei qualquer pessoa o atacando com força no chão, e ele se quebraria, se espatifaria, e eu não poderia fazer nada. Uma sensação de impotência caiu por cima dos meus ombros e quase me derrubou, porque eu, meu Deus, eu não poderia fazer nada, a não ser recolher os seus pequenos restos do chão e deixa-lo lá, novamente, em cima da mesa, quebrado, ferido. Se fosse gente, sentiria dor.

Literatura arruinou minha vida, pensei.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

II

(...) Pegou seu travesseiro, colocou o pijama e foi para o sofá, mas, por algum motivo, Anne não sentia sono. Ficou deitada, olhando para o teto e fumando enquanto pensava na sutileza do tom da voz daquele rapaz; era um rapaz tão humano (com suas mãos bonitas e brancas), era um rapaz extremamente humano (com seu corpo magro tão cheio de ossos e unhas brutas), era a pessoa mais humana que já tinha visto. Humanos são bichos, repetiu baixinho, e tentou encontrar em John o que o deixava assim bicho, o que fazia dele tão humano. Os suores, os pedidos simples, as fomes, as necessidades, os sonos, o frio, os arrepios, os desejos. Sim, tudo isso cabia dentro dele e era quase estranho perceber tanta coisa dentro de uma vida que ela mal conhecia, mas que apenas por ser uma vida já tinha seu respeito, porque eram iguais. Felizmente ou não era iguais, porque eram gente, animais. E então, ao descobrir que era igual à ele, pensou nos choros, nos risos, nas tristezas, nas alegrias, nas quedas em que ninguém pensava. Se era igual a ela, quantos amores havia tido? Quantas vezes havia desejado a morte, aquele garoto? Uma súbita e estranha curiosidade nova encheu-lhe o peito e quis saber. Amor perdido ainda é amor, amor esquecido ainda é amor, amor triste também é amor. Deve ser um rapaz cheio de amores, refletiu, um em cada lugar aonde vai, tinha cara disso, e ela pensou, com vergonha de si mesma, que ela mesma poderia ser um desses. Não se importava em ser "mais um desses", mas o importante era que fosse um, poderia ser até que só voltasse nas sextas-feiras ou sábados, mas saberia viver aguardando a volta. Gostava de pensar em seus amores passados como ainda amores, e não como ex-amores, e não como peças perdidas do pequeno quebra-cabeça que completava a parte já finalizada da sua vida. Talvez ele fosse igual. Era uma forma de viver, e de nunca estar sozinha. Lembranças são companhias. Esperar por um amor assim era uma forma de viver, e de ser sozinha. Queria apenas as lembranças.

domingo, 21 de setembro de 2008

o amor não é algo completo.

o amor não é algo completo.
se bem que ainda não decidi se não o considero completo, ou se o considero ambicioso demais.

um sentimento não decidido assim não deveria entrar em corações menos decididos ainda, como o meu; sabe, isso causa uma confusão danada. de repente é isso, você está:
feliz
triste
feliz
triste
feliz
triste
e então você sente:
saudade
alegria
saudade
alegria
saudade
alegria
e aí você pensa que:
é bom
é ruim
é bom
é ruim
é bom
é ruim.

penso que quando se ama, mas quando de fato se ama mesmo, nunca se está satisfeito. o amor é um bichinho pretencioso, p'ra não dizer arrogante. sempre haverá do que sentir falta e pelo que chorar, ainda que aparentemente esteja tudo dentro do combinado, tudo nos conformes; mas de alguma forma, em algum lugar, algo te incomoda e diz que pode haver mais, e se abre um buraco dentro de você que te força a procurar mais, e não se acha. é quando se chega ao pelo que sentir falta, pelo que chorar. um impulso vem bem de dentro, de baixo, do fundo, e te empurra com força para um lugar desconhecido (lembre-se: você nunca havia saído da sua própria concha antes), e quando se dá conta você ja está chutando pombas na rua, fumando cigarros de pessoas que você acabou de conhecer, brigando com a família, pensando em casamento, juntando dinheiro para a possível fuga, pensando na hipótese do suicídio caso a pessoa te largue, e etc. e onde é que se chega? bem, a lugar nenhum. é preciso admitir que não se chega a lugar nenhum, e essa é a melhor parte. o final sempre é feliz, mesmo que ocorra o tal suicídio planejado como saída de emergência, porque não se vai a lugar nenhum. um lapso de vida passou por você, e você viveu, mais do que ja havia vivido em toda sua vida, e algumas vezes ele passa, em outras fica por bastante tempo, e em raras vezes te agarra para sempre, mas qualquer que seja a estadia deste raio vital em você, ele não te leva a lugar nenhum. e valeu a pena. todo [tipo de] amor vale a pena. gosto de comparar tal sentimento a um livro, mas um daqueles livros os quais só de ler você pensa ter conhecido metade do mundo, mas aí você tem que almoçar e se da conta de que não saiu do seu próprio quarto. talvez amor seja mesmo essa coisa de conhecer os sete céus e os sete infernos sem sair do lugar, ou ir até os nuvens com os pés no chão.
sim, talvez seja.
acredito que seja.
é.

eu amo. (porque amor, p'ra mim, é verbo instransitivo)

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

i let you go.

não cassoes
dos meus sambas tristes
das minhas olheiras
das minhas noites vazias de sexta-feira
das minhas mãos frias.
não te esqueças
que foi preciso mais do que alguns quilômetros
que quem me matou foi o mesmo mal que faz mal a ti
que a mim o cansaço não vence (que sou bicho teimoso, desde os astros)
que esqueci minha vida doída.
vamos,
não sejas covarde
mate logo o que anda te corroendo
só prometas que não vais lembrar
de dar uma chance a mim
que já não mereço mais.
ofereças tua boca ao mundo
e não peques mais assim, que coração nenhum é feito de metais.
vá, e não te atrevas a olhar para trás
fico aqui com minha vida
(entre encontros e despedidas)
e meus cigarros
que tu tanto odeias.
vá, e não se remoa com o que perdeu
que de lembranças vivo eu.
finalmente compreendi
saudade nenhuma resiste à perfeição,
não guardarei mágoa, e nem raiva
pelos olhos inchados
pelas noites em que não dormi
pelas horas que passei
enlouquecendo, nascendo, morrendo
pelos quilos que perdi
pelas velas que acendi em vão.
estarei em pé, como sempre estive
não te preocupes comigo
porque agora...
eu te deixo ir.
em paz.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

03/04/2007

essa noite eu me senti
tão sozinha que pensei ter visto Deus;
não há algum Deus além de mim
e eu posso pensar que Deus sou...
e escrevo.
em vários lugares
mas eu tenho medo de espelhos da alma
se dizem que é bonito:
não é elaborado
é solidão
não é poesia
é exato.
tristeza por vaidade
talvez por querer chamar atenção.